Foto de Alvaro Garcia, Jornal "El Pais"

"Der Hügel kocht": O livro de culinaria de Bayreuth!

Receitas culinarias e ópera: Duas paixões em um livro!

Aí estão algumas receitas dos nossos amigos de Bayreuth! Mais que uns uns simples livros de receitas, é uma maneira de conhecer um pouco os gostos dos nossos amigos wagnerianos!

Certamente que nossa querida Waltraud esta presente também! Compartilhando a sua receita com “Bio-Schwein” (porco orgânico), costela do porco orgânico com legumes mediterrânicos e aspargos verde!

Não duvido que ela domine a cozinha assim como o palco, mas eu adoraria uma opção vegetariana! (Vegetariana ha 5 anos, prefiro os animais vivos! A minha sugestão: substituir o porco por salsichas de tofu defumado!)

De qualquer modo fico contente com a sua escolha pelos alimentos orgânicos!


Não conheço ainda o livro, mas creio que associar algumas receitas vegetarianas à Bayreuth seria interessante, dado que Richard Wagner considerava muito os animais.

Assim como escreveu numa carta intitulada: "Carta à Ernst Weber (contra a vivisecção)" em 1879:

“… Quando a sabedoria humana compreendeu que o animal e o homem são frutos do mesmo sopro criador, parecia demasiado tarde para desviar a maldição que atraimos sobre as nossas cabeças, colocando-nos ao nível de animais ferozes que consomem alimento animal: doenças e misérias de qualquer tipo às quais não se viam nos homens que viviam unicamente com base em uma dieta de origem vegetal. O reconhecimento que adquirimos fez-nos compreender a culpabilidade profunda da nossa existência terrestre: decidiu aos que foram convencidos daquilo deveriam renunciar à qualquer alimento que excita as paixões e a abster-se de qualquer alimento animal. São a estes sábios aos quais revelou-se o mistério do mundo como um incessante movimento de liberação que so podia ser libertado para voltar à unidade sã e tranquila através da piedade. Unicamente a piedade que sentia por todo ser que respira, daria a liberdade ao sábio da metamorfose incessante de todas as existências penosas pelas quais deve passar até chegar a redenção definitiva..."

Clique na fotografia para saber mais a propósito do livro. (em alemão)

Tristan und Isolde no Opera de Paris

“Nur eine Stunde, nur eine Stunde...” (apenas mais uma hora, apenas mais uma hora...) , uso essa frase de Isolde para expressar o que eu gostaria deste concerto do dia 13/11/2008 com a divina Waltraud Meier no papel de Isolde! Que experiência incrível!

Alias concerto que contou com um seleto grupo de cantores onde destaco também Clifton Forbis, no papel de Tristan; Franz Josef Selig, como Rei Marke; Alexander Marco-Buhrmester, como Kurvenal e Ekaterina Gubanova, como Brangäne.

A própria concepção da montagem e movimentação em cena parece deixar Isolde “livre” no palco, pronta a viver seus limites. A força, não só de caráter mas de espírito que tem Isolde naturalmente, só vejo e sinto claramente quando é Waltraud Meier que a “vive” em cena.

Digo “viver” pois não acredito (ao menos não consigo perceber) que Waltraud interprete algum personagem, principalmente quando falamos de Isolde e Kundry especificamente.

É dificil explicar o que seria esse “viver o personagem”,é claro que nada tem a ver com sua vida particular; simplesmente é como que, ao entrar em cena, ela se entregasse totalmente ao personagem, ao arquétipo do personagem, que vai dar a beleza de nuances, de sensações, onde ela simplesmente coloca-se da maneira mais humilde e sincera, como uma servidora desse arquétipo, tendo aí o mérito de mergulhar nos mais profundos mistérios desse personagem e ai sim; nao vivê-lo, mas proporcionar-lhe a vida, trazendo o fruto dessa experiência, esse mar de sensações e emoções para o deleite do publico.

Assim como “ao beber” dessa fonte arquetípica, se podemos assim chamá-la, ela tem também a virtude de captar a energia do momento de cada apresentação, que vai desde captar as idéias do diretor, do responsavel pelo cenario, do publico, enfin, todos os elementos que formam uma apresentação, o que a faz uma pessoa única, que sempre proporciona um impacto único e diferente ao público.

Bom, é ousado de minha parte querer colocar em palavras um processo tão especial, até mesmo sagrado, como esse, mas enfin, vale a pena filosofar a respeito do que é o “entrar em contato com a obra de arte”.

E neste concerto, a sua forma de narrar o momento que Tristan à olha nos olhos, afirmando a união entre suas almas, sua determinação para morrer junto com Tristan , sua invocação da noite libertadora, até o sagrado momento da morte de amor é uma experiência que talvez poucas cantoras consigam transmitir como Waltraud!

Quanto a montagem de Peter Sellars é fácil explicar: palco vazio, tudo preto e escuro, com um pequeno palco quadrado no meio que mudava de posição em cada ato. Figurino dos cantores: preto e tons cinzas. E além de “tudo” isso um telão enorme. Sim, um video foi exibido durante toda a peça, trazendo imagens do mar, de um casal, do fogo, da agua, da natureza, contextualizando-se (na medida do possível) com a música. Esse video é do Bill Viola. O video traz idéias interessantes, apesar de algumas imagens muito “concretas”, porém para se fazer um filme, e não uma montagem no teatro! O telão gigantesco impedia consideravelmente o contato do publico com os artistas, muitas vezes mal dava para vê-los (digo isso pois estava assistindo da quinta fileira central da platéia!). Porém temos cantores no palco! Temos Waltraud Meier e um grande elenco para colocá-los à cantar no escuro, com um telão ao fundo?!!! Sinceramente não entendo! Talvez o problema seja comigo, mas enfin, vou ao teatro pra ouvir e VER os cantores! Por favor diretores, respeitem isso!

Mas como disse, graças a esses cantores, mesmo no escuro, tivemos uma experiência incrível!


Parsifal x Kundry: uma relação que leva do "puro, tolo" ao Iniciado

É interessante observar algumas semelhanças e, em alguns casos, os antagonismos, que apontam uma forte relação entre Parsifal, o Salvador, aquele que trilha o caminho espiritual, e Kundry, a tentadora, que justamente parece desviar Parsifal de seu caminho. Vejamos alguns itens:

1° ) Desde o começo da peça , a primeira vez que Kundry entra em cena , podemos perceber uma forte variação orquestral, uma “tensão” musical, como que representando um incômodo aos cavaleiros de Mont Salvat, como mostra o video abaixo.

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Tensão que ocorre também quando Parsifal entra em cena, após matar o cisne.

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2°) Em todas as religiões, o espírito vivificante tem sido simbolicamente representado por uma ave. No cisne temos uma representação para o neófito que, trilhando um caminho espiritual, busca auto conhecimento e auto controle, e que, quando torna-se um Iniciado, encontra-se imune ao efeito dos 4 elementos basicos: ar, agua, terra e fogo. O cisne pode “atravessar” pelos quatro elementos, ele pode tanto voar (ar), como nadar (agua), como caminhar sobre a terra (terra) e por ter uma unica parceira em sua existência (representando um dominio das paixoes), simboliza também o dominio sobre o fogo.

Parsifal matou o cisne. Porém a sequência da cena nos mostra que Parsifal precisa passar pela prova de auto controle e tornar-se um Iniciado, pois nos revela uma série de indícios fazendo alusão aos 4 elementos:

Quando Kundry diz a Parsifal que sua mãe esta morta, ele tenta machucá-la, jogando-a no chão (chão em francês, “parterre”), indicando o elemento terra. Quando Gurnemaz o afasta ele se sente sufocado, sentindo falta de ar: elemento ar. Kundry, mesmo tendo sido atacada por Parsifal, piedosamente vai buscar água para ajudá-lo: elemento água. Faltando o elemento fogo: a paixão que Parsifal sentirá por Kundry no segundo ato.

3°) Ainda analisando o fato de Parsifal ter matado o cisne, um terrivel crime nas terras de Mont Salvat, que foi justamente Kundry que nos disse um pouco antes, quando é tratada como um animal:

Sind die Tiere hier nicht helig?
Os animais não são sagrados aqui?


4°) Mesmo Gurnemaz compara Parsifal a Kundry, quando questiona Parsifal sobre suas origens e ele não sabe responder. Gurnemaz diz:

So dumm wie den
Alguém de estupidez proporcional à dele,
erfand bisher ich Kundry nur!
até hoje só achei Kundry!

E esta relação entre Parsifal e Kundry, que vai aos seus limites no segundo ato, vai até o fim, onde Kundry, após ter conduzido Parsifal ao caminho do conhecimento em todos os níveis, morre. E Parsifal vive. Morte e Vida que representam a magia que impera no milagre da eternidade.

Idéais vindas da natureza

Nada como a natureza para inspirar algumas montagens wagnerianas...

Ja imagino essa arvore como a "Yggdrasil" no meio da casa de Hunding e Sieglinde!
Construindo a "casa" em volta e colocando a espada Nothung enfincada , pronto, ja temos o cenario para o primeiro ato de "Die Walküre"!



Que tal a "gruta" que forma essa arvore para o cenario do segundo ato de "Tristan und Isolde"?

Consigo até para imaginar as folhas caindo na medida que avança a noite, representando uma mudança, seja de estação (do outono para o inverno), seja de turno do dia para noite, seja da paixão para o amor, seja da vida para a morte...






E que tal esse modelo de lança para Wotan?

Onde os acordos e tratados são talhados de tal forma que chegam à emitir luz?










Inspirações...



O Misticismo que une Tristan e Isolde

Quando Tristan finalmente vai ao encontro de Isolde antes de descer na Cornualha, temos um leitmotiv que se repete 4 vezes.
(Clique aqui para ver este trecho da opera. Começa a partir dos 5 minutos do video)

Quatro que significa também o magnífico quaternário mágico do CALAR-SE, SABER, PODER e OUSAR, que é um método prático para aqueles que querem trilhar um caminho espiritual de auto conhecimento; e que deixa clara a união mística que buscam os nossos amantes.

Esclarecendo estes quatro principios, entendemos que CALAR-SE vai obrigatoriamente preceder o SABER, o PODER e o OUSAR, pois significa acalmar e silenciar o automatismo do intelecto e da imaginação, para atingir a devida concentração que traz conscinência para aquilo que se fala.

Dessa concentração, temos o saber que colhe os conhecimentos, as experiências, para transformar em sabedoria.
Este saber, fruto da reflexão pura, que fixando-se na memória, passa pelo processo de assimilação pelos pensamentos e sentimentos, para tornar-se uma mensagem, um simbolo comunicável.

Atingindo então o PODER enquanto querer, o poder que escolhe, que decide aquilo que quer buscar, onde e como buscar, pois pode fazê-lo, domina a situação.
Para "poder" finalmente OUSAR, onde ele ousa para elevar-se na verticalidade, além da criatura, até a essência do ser, o fogo criador divino.

Isolde vai nos dizer que ela também aprendeu a CALAR-SE quando escondeu e curou Tristan, até finalmente Tristan entender também o chamado da "Rainha do silencio" quando ele diz, no primeiro ato:
"Des Schweigens Herrin
A senhora do Silencio
heisst mich schweigen:
manda-me calar
fass' ich, was sie verschwieg,
se comprendo do que ela silencia
verschweig ich, was sie nicht fasst.
silencio sobre o que ela não compreende."

Isolde sabe o que quer, mais do que a reconciliação ela quer a quebra do convencionalismo. Todos os tipos de experiências e sentimentos que ela viveu em relação à Tristan trouxe a ela a revelação de que não se há espaço para o verdadeiro Amor dentro de estruturas impostas pela sociedade, que ela esclarecerá à Tristan mostrando à ele como ambos estão vivendo nesse mundo de aparência.

No filtro temos uma representação do PODER, filtro de morte, que Isolde o chama como filtro de reconciliação (Sühnetrank) e Tristan o chamará como filtro do esquecimento (Vergessenstrank), porém podemos entender como o próprio filtro de amor, que vai dar forças para romper cpm as convenções. (entendendo que Amor e Morte são faces da mesma moeda).
Onde finalmente ambos podem ousar no que chamamos de verticalidade, realmente na busca da essência do ser. Enquanto corpo (Tristan) e alma (Isolde) servindo ao espírito para acumular experiências e viver as máximas potencialidades divinas que portam, acender em si a chama, o fiat criador, enquanto deuses em formação.

Isolde já afirma sua ousadia quando ela explica tudo o que se passou entre ela e Tristan, deixando claro seu desejo de vingança. Porém quando ela finaliza com a frase: "Tod uns beiden"(morte para nós dois), pode-se questionar: Se ela quer vingança, porque morrer junto com Tristan?

Encontraremos a resposta no próprio libreto:

So stürben wir, Assim nós morreremos,
um ungetrennt, para não sermos mais separados,
ewig einig eternamente unidos,
ohne End', sem fim,
ohn' Erwachen, sem acordar,
ohn' Erbangen, sem medo,
namenlos sem nome,
in Lieb' umfangen, encontrando-se no amor,
ganz uns selbst gegeben, dados inteiramente um ao outro,

der Liebe nur zu leben !

para viver somente pelo amor !


E deixemos que a musica fale por si mesma:



A alquimia do Preludio de "Tristan und Isolde"

Wagner tem por caracteristica, em seus preludios, fazer um resumo de todo o drama que esta para acontecer.

Em "Tristan und Isolde" não é diferente. A harmonia entre os leitmotivs nos transmete 4 idéias gerais:

AMOR - OLHAR / MORTE - DESEJO

O OLHAR que fez surgir o AMOR, e o DESEJO que leva à MORTE. Assim como Parsifal falaria à Tristan: "A fonte do mal, da infelicidade, esta nos desejos do mundo, é preciso beber de outras fontes...".

Porém como pode o olhar que desvenda os mistérios da alma, que conduz ao amor, ser maculado pelo desejo, que leva à morte?

Mais uma vez a Astrologia nos aponta um caminho interessante. Nesta relação temos os 4 signos fixos: Touro, Leão, Escorpião e Aquario, conforme nos mostra a figura abaixo:


Sabemos que onde ha luz ha também sombra, e quanto maior a luz, maior a sombra. A sombra do Amor é a paixão, que porta em si o desejo, onde os amantes apos beberem o filtro (que nada mais é que do que a quebra do convencionalismo) traz essa paixão à tona.

Porém esse amor porta em si uma inocência dada que deve ser transformada em uma pureza conquistada, ou seja, precisa da experiência da paixão que vai trazer o conhecimento, é o amor que envolto na paixão vai buscar a transmutação dessa paixão conquistando não mais a inocência, mas sim a pureza do amor, rica em sabedoria.

Essa experiência de amor e morte é também simbolizada pelos filtros, pela troca dos filtros, que, enquanto essência, filtro de amor e morte são os mesmos, pois so representam a quebra com as convenções impostas pela sociedade.

Assim como Parsifal precisa de Kundry, pois o inocente simplesmente "não sabe", mas o puro "conhece" e aprende a renunciar.

West Eastern Divan Orchestre, Daniel Barenboim e Waltraud Meier

Aqui esta um pequeno trecho do concerto que recebeu mais de 15 minutos de aplausos neste 25/08/2008 na Salle Pleyel, em Paris.

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Este foi mais um maravilhoso concerto que a nossa querida Waltraud Meier juntamente com os cantores René Pape, Simon O'Neill e com a West Eastern Divan orquestra, sob a direção de Daniel Barenboim, nos proporcionou.

Esta orquestra, que conta com estudantes de música de países tidos como inimigos políticos, como a Síria, Líbano, Egito, Jordânia, Tunísia e Israel, é o grande projeto do maestro Daniel Barenboim (argentino, de descendência judaica) e o filósofo e professor da Universidade de Columbia, Edward Said (de origem palestina), que faleceu em 2003. Uma oportunidade para que jovens músicos do Oriente Médio pudessem combinar estudos musicais com diálogos sobre a sempre tensa situação entre Israelenses e Palestinos.

Este foi um grande momento para esta incrivel orquestra. No final do concerto, Daniel Barenboim, apos cumprimentar todos os musicos da orquestra, dirigiu-se para publico da Salle Pleyel dizendo: "Ajudem-nos!" Como que um apelo, Daniel Barenboim pede à seu publico um apoio para que este projeto possa vencer as barreiras impostas pelos paises de origem dos musicos que formam a orquestra, completando que o objetivo é que esta orquestra possa se apresentar livremente em todo Oriente Médio e que seja uma representação de uma mensagem de paz e de uma possibilidade de dialogo entre esses povos, quebrando a barreira da ignorância cultural que existe em certos paises.

Mais do que um concerto especial, vivemos uma experiência espiritual e musical unica, onde a musica realmente torna-se a linguagem universal e onde a voz do coração torna-se a verdadeira razão!

Muito obrigada à todos por essa noite inesquecivel!

(Assista outros videos deste concerto clicando aqui.)

obs: uma foto do publico, onde apareço junto com meu marido! que privilégio!

Waltraud Meier como Isolde no Scala de Milão/2007

Querida Waltraud,
Estou realmente contente de ter encontrado este seu pequeno "portrait" no canal de televisão ARTE à respeito da produção de "Tristan und Isolde" no Scala de Milão em 2007.


A sua sensibilidade e devoção com as obras wagnerianas é realmente algo emocionante, e que podemos sentir na sua voz, na sua presença de palco, na sua emoção, na sua "vivência" do personagem! Infelizmente eu não estava presente pessoalmente em Milão, mas em outras oportunidades que pude compartilhar de um momento em uma mesmo ambiente com você, não posso negar que tive a alma tocada!

Compartilho com todos o link para o video no canal Arte.

Cliquem aqui! (ou sobre a imagem acima)

Meus sinceros agradecimentos ao canal ARTE.

Sieglinde/Sigmund x Brünhilde/Siegfried

“O que esta no alto é como o que esta embaixo e o que esta embaixo é como o que esta no alto, para assim realizar o milagre da Unidade”.
Esta é a fórmula tradicional do método de analogia, da Tábua de Esmeralda de Hérmes Trimegisto aplicada em relação ao espaço (no alto e embaixo).
Aplicando a fórmula em relação ao tempo (passado e futuro) podemos dizer “Aquilo que foi é como aquilo que será e aquilo que será é como aquilo que foi.”
Assim como o crepúsculo dos deuses já estava previsto no Ouro do Reno.
Partindo desse ponto, proponho uma relação entre 4 personagens-chave para toda a trama de “Der Ring des Nibelungen”:
Sieglinde/Siegmund e Brünhilde/Siegfried.

Mais do que uma relação de espelhamentos, temos nos personagens o ponto central de onde nossa peça encontra manifestação na relação tempo e espaço. Conforme indica a figura abaixo:
Para facilitar a compreensão podemos utilizar a grande cruz da Astrologia com os eixos Capricórnio/Câncer e Áries/Libra, onde teremos os personagens da seguinte maneira:
Partindo da relação “tempo”, temos os 2 irmãos, que são gêmeos, separados na infância, onde Siegmund conquistando experiências, lutando para ser um ser livre na busca pela Verdade, ao lado de “Wolf”, quando desarmado e inofensivo chega ao lar de Sieglinde, mas claro, ainda não consciente.
Este arquétipo do passado (“Siegmund”) precisa manifestar-se no presente (“Sieglinde”) assim como a manifestação embaixo (“Brünhilde”) só ocorre como objeto do protótipo que vem do alto (Siegfried), ou seja, Siegmund precisa de Sieglinde e Brünhilde precisará de Siegfried.
Porém a relação “tempo” precisa da relação “espaço” para manifestar-se, e simultâneamente teremos Brünhilde agindo pelos mesmos princípios de Siegmund (por mais que ela siga as ordens de Wotan, o compromisso de Brünhilde é, antes de tudo, com a Verdade).
Siegmund e Sieglinde são irmãos enquanto alma gêmeas, seres que provém dos mesmos progenitores, mesma “fonte”, compartilham os mesmos princípios e ideais, onde porém esse anseio pela verdade está preso à estrutura do tempo, horizontal (analogia com o signo de gêmeos) e por receberem toda a proteção de Wotan, o Deus dos tratados e acordos, o Deus incapaz de criar um ser livre, apenas servirão como fonte para, em uma estrutura vertical (analogia com o signo de Sagitário), criarem um ser que possa ser mais livre do que o próprio Deus Wotan, livre das convenções, onde podemos aqui até relacionar Wotan e sua estrutura “Walhalla” com os dogmas da igreja, que ofuscam a verdadeira espiritualidade.
É Sieglinde que nomeará Siegmund (onde o nome é fruto do amor que ela tem por ele) , assim como é Brünhilde que nomeará Siegfried.
Brünhilde será, como um gesto de auto sacrifício, “aprisionada” pelo próprio Wotan simplesmente para que Siegfried possa vir à luz. E será Siegfried, somente ele, que depois irá libertá-la para tornar-se o grande herói, o grande “cordeiro” que será sacrificado para que um novo mundo seja possível.
(Este tema foi proposto através do link “sugestões de novos temas” no blog versão francesa por “kundry 06”)

KUNDRY : vilã ou heroína?


Uma das coisas que mais me atraem em um personagem é a força de caráter que ele porta.

Dos nossos heróis wagnerianos sem dúvida que todos portam uma força incrível, mas alguns não são necessariamente heróis, porém conquistam essa força e tornam-se heróis.

Brünhilde, por exemplo, é naturalmente uma heroína, mas penso no caso em Kundry, que é justamente aquela que vai testar o herói, mas que é também o espelho fundamental para Parsifal, sem a qual ele não salvaria Montsalvat.

Kundry... misteriosa, sem origem conhecida, com olhos que tudo vêem e ouvidos que tudo ouvem, que acompanha os cavaleiros seja na salvação ou na perdição. Ela que atravessa continentes, planos, dimensões; destinada a errar pelo mundo, portando em si o conhecimento, é a serpente, a mulher enquanto “Eva”, enquanto princípio.

Kundry que serve à dois senhores: ao Graal quando dispertada por Gurnemaz, à Magia (negra) quando dispertada por Klingsor. É a mulher selvagem, a mulher sedutora, a mulher servidora. É ela que dominada pelos seus desejos inferiores, de natureza sensual, que incita os cavaleiros a perderem o domínio de sua energia criadora, é ela, e somente ela que pode indicar os caminhos à Parsifal, que é inocente até conhecer Kundry, quando ela proporciona à Parsifal à possibilidade de, através do conhecimento, transformar essa inocência infantil que só é inocente pois não conhece, em uma pureza que aprende a renunciar.

Parsifal precisa inclusive da maldição de Kundry, que diz que ela encontrará todos os caminhos, salvo aquele que ele busca, pois é só errando pelo mundo que ele conquista as experiências do mundo, de utilisar a lança, o poder espiritual, para curar, nunca para ferir, e depois de servir pelo mundo finalmente conquistar o mérito de tornar-se rei do castelo de Montsalvat e curar a humanidade, curar Amfortas, o homen caído.

De Herodias, a mulher que pediu a cabeça de João Batista em uma bandeja, à Maria Madalena, a mulher que Jesus Cristo expulsou 7 demônios, que lava os pés de Jesus e O vê após à Ressureição, Kundry é um universo de possibilidades.

É a grande figura wagneriana, criada pelo próprio Richard Wagner, pois não temos referências mitológicas exatas à respeito de Kundry da forma que encontramos na Kundry de Wagner.

Um estudo de misticismo designa como método de disciplina espiritual, o que chamamos de 3 votos: Voto da Pobreza, da Obediência e da Castidade. Esses 3 votos são em sua essência, lembranças do “Paraíso”, onde chamamos de Obediência quando o homen era unido à Deus, onde ele possuia tudo na medida que necessitava (sem apegos), que chamamos de Pobreza, e onde sua companheira era por sua vez sua esposa, sua amiga, sua mãe e sua irmã, que chamamos de Castidade. Pois a comunhão total entre o espírito e o corpo implica na integralidade absoluta do ser espiritual, anímico e corporal, no amor puro e casto, pois ai ama-se da totalidade do ser. Amar é sentir algo como plenamente real, despertando –se para a realidade de nós mesmos,que nos levará para a realidade do outro, do próximo, da humanidade.

Kundry, que desperta Parsifal para a realidade de si-mesmo no momento que ela o nomeia, vai passar por “mãe”, como que guia (amiga) para que ele descubra suas origens, até passar-se por esposa, amante revelando à ele mais do que as dores do mundo, as dores de amfortas, mas sim o Amor e as dores da Paixão, quando não conseguimos vivenciar esse amor puro e casto, até mostrar seu destino maduro para Parsifal implorando uma redenção, e deixando claro para Parsifal que ele só aliviará essa dor da Paixão indo ao encontro do amor pela humanidade.

Kundry, condenada à errar por vidas e mais vidas, precisa encontrar aquele que à rejeita, aquele que acessa o conhecimento (“KUNDe”que significa conhecimento em alemão, com o mesmo radical que KUNDry. No segundo ato Kundry diz à Parsifal: “Was zog dich hier, wenn nicht de Kunde Wunsch?” O que te atraíu até aqui senão o desejo do conhecimento?) do mundo, horizontal, que Kundry proporciona e que será a base para a conquista do conhecimento vertical, a sabedoria espiritual.

E Kundry após servir como caminho para o processo de Iniciação de Parsifal, finalmente acessa ao Graal, participa da cerimônia iniciática e pode, mais do que morrer, libertar-se da roda do destino, dos ciclos incarnatórios, conquistando a esperada redenção.

E claro, dedico esse texto à querida Waltraud Meier, que muito contribui nas inspirações à respeito de Kundry, que porta em si a sintese das possiveis incarnações da personagem (Herodias, Maria Madalena, Gundriggia, etc) e que é (na minha opinião) A melhor Kundry de todos os tempos!


Para aqueles que se interessarem sobre os métodos de disciplina espiritual, segue indicação da fonte: "Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarot", autor anônimo.

Relação completa entre os personagens de "Tristan e Isolde"

Refletir sobre a relação entre os personagens do nosso momumental « Tristan und Isolde » contribui para uma melhor e mais profunda interação com a obra. Construir uma análise astrológica é algo que me atrai, justamente por lidar com a dualidade, com a questão da oposição, da complementação, algo que é frequente em “Tristan”. Vejam a figura abaixo, analisando-a pelos eixos dos opostos complementares:

Começaremos esclarecendo o signo de Áries, pois é o que inicia o zoodíaco, é o que representa o desbravador, o herói (mártir geralmente), a ação em si. Ai encontramos Morold ( e em partes, também Tristan, pois Áries é regido pelo planeta Marte, que também é co-regente de Escorpião). Enquanto oposto complementar temos Isolde no signo de Libra, regido por Vênus, a Isolde “noiva”, a princesa que aguarda seu herói, que conhece as artes de sua mãe, que vive nos padrões impostos pela corte na qual ela habita.

Porém nossa história começa já no signo de Touro, e claro, com Isolde. Touro também é regido por Vênus, porém a Vênus em Touro “perde” em diplomacia e “ganha” em obstinação. É a Vênus que seduz, que quer ter, controlar, dominar à situação. Ela vai até o fim para atingir seu objetivo: Escorpião, logo, Tristan. Escorpião, que é co-regido por Marte mas principalmente pelo planeta Plutão, planeta da magia, da destruição, da transmutação, das potências que cada espírito porta em si, muitas vezes inconscientemente. Isolde já rompeu com o convencionalismo libriano quando, através do olhar de Tristan, descobriu que o verdadeiro Amor é incondicional, ou seja, no nosso mundo de relações de tempo e espaço, regido por condições, esse Amor não tem espaço (o olhar é regido pelo planeta Urano, acesse o texto aqui) . Tristan, o fruto da tristeza, que porta naturalmente as características plutônicas, que re-ganhou a vida das mãos de Isolde, ainda é um servidor do “dia”, da falsa luz, das convenções.

Ele é também o signo de Capricórnio com sua regência Saturnina, o qual falaremos mais adiante.

No eixo de Áries e Libra temos signos cardinais, são os que iniciam, a base, os princípios. No eixo Touro e Escorpião temos os signos fixos, onde a história acontece, a carga pesada e mal resolvida que busca uma solução, e no eixo de Gêmeos e Sagitário, signos mutáveis, temos os que ajudam a sustentar a trama, os que dão as chaves, os apoios, os que fazem circular a energia, que dão movimento na busca para uma resolução.

No signo de Gêmeos encontramos Kurvenal, Melot e Brangaine. Todos portam as características do planeta regente, Mercúrio, são eles os que levam informações, preparam ambientes, seja uma emboscada ou uma colaboração para cada situação. Apesar de Brangaine e Kurvenal terem fortes características de um Mercúrio no signo de Virgem, pois são fiéis servidores de seus respectivos “mestres”, o comunicativo, conector e dinâmico Mercúrio em Gêmeos o descrevem bem, tendo como complemento o grande Rei Marke, que encontra aqui a representação de seu bom nobre coração, jupiteriano, típico do signo de Sagitário. É o Rei Marke no 3° Ato.

A complexidade de Isolde e Tristan ocupam também a relação entre os signos que são o grande eixo vertical da mandala astrológica, a coluna vertebral, o eixo Câncer e Capricórnio. Junto com Áries e Libra, são os eixos que representam a cruz da vida, o espírito crucificado na matéria encontra ai o ponto que o aprisiona, e sabendo olhar para si mesmo, encontra também a chave da libertação. Isolde esta presente tanto em Libra quanto em Câncer, é a única presente nos 2 eixos cruciais do zoodíaco. É ela que, espelhando-se no próprio Tristan, encontrará e entregará à ele à chave de sua libertação. Câncer é a natureza interior, as emoções, a imaginação, a mãe de quem Isolde herdou o conhecimento das Artes, os ciclos da vida, as alternâncias, sejam das marés ou dos humores de cada um. Regido pela Lua, Câncer é a representação da alma. é o que porta aquilo que extraimos dessa vida e que enriquecerá nosso caminho enquanto espírito; é Isolde. Ela que vivencia as mais variadas sensações no grande navio de Tristan no primeiro ato, ela que nos esclarece a história, ela, a emoção que busca a razão: Tristan, Capricórnio e seu regente Saturno, o planeta da dor. Saturno é castrador, limitativo, difícil, pesado, é a razão que castra as emoções, é o que mantém a ordem, o “status quo”. É o topo da montanha, a solidão, o raciocínio lógico, a realidade. Porém no mais alto nível é o Sacrifício, o acreditar, a fé inabalável, o exemplo em si mesmo, é o Mártir como o Marte (em Áries) porém consciente.

O que transforma Tristan em uma nobre alma é justamente o efeito espelho que encontramos no eixo Leão e Aquário, onde temos o Rei Marke e Tristan, Marke é aqui o signo de Leão, a compaixão, a lealdade mesmo que não correspondida como esperado pelo seu fiel Tristan, e é também, quando complementa-se ao signo altruísta de Aquario, são ambos, Tristan e Marke, também o amor. Um amor ainda egóico que mesmo Tristan só vai aprender a ir além desse amor no 3°Ato. Amor que aprende ainda mais que amar ao próximo, que vai ao encontro do amor pela humanidade: é aquele que aprendeu a amar o Amor por si só. Leão é o signo do “Eu sou”, em Aquário, através do amor altruísta chega-se ao “Eu amo”. E ponto.

E toda nossa história acontece no eixo do destino maduro, da dívida kármica que cada um assume consigo mesmo, no eixo de Virgem e Peixes. Serviço e Sacrifício tornam-se um só. E lá temos o reino do dia, no signo de Virgem, e o reino da noite, no signo de peixes. O Reino do dia que é o reino da falsa luz, o que serve como cenário para as convenções impostas pela sociedade, onde a luz produz sombras, mundo de aparências e ilusão, é o consciente limitativo, com regras castradoras, mundo da pluralidade, é o mundo onde se “vive”, porém “morto”, mas é no reino do dia que os amantes encontrarão os elementos para a purificação, é na luz do dia Tristan se lança sobre a espada de Melot, e na mesma luz que teremos o “Liebestod”, a morte de amor de Isolde. Mas o reino do dia opõem-se ao reino da noite, da luz interior, a luz espiritual, o brilho que só percebemos se sairmos da falsa luz, a verdadeira realidade enquanto essência, a união mística, o inconsciente, o mundo original (absoluto) onde “morre-se” para viver, onde após a purificação teremos o sacrifício.

De qualquer forma Tristan e Isolde não buscam a morte física, buscam esse mundo mágico do Reino da Noite, que escapa da relação entre tempo e espaço. Peixes, o reino da noite, regido pelo místico e transcendente planeta Netuno, vai ter seu oposto complementar em Virgem, o reino do dia, regido por mercúrio (assim como gêmeos) que transita nos mais diferentes níveis para que tenhamos o ordinário servindo como a base para o extraordinário acontecer.